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O ditado “mulher no volante perigo constante” carrega uma forte menção pejorativa: a de que mulheres, por serem mulheres, dirigem de forma mais arriscada do que homens. Porém, é esse tipo de afirmação, generalizada e repetida por décadas, que os dados a seguir colocam à prova.

A frase não nasceu de nenhum estudo. Ela circula como piada, como reclamação de trânsito, como legenda de meme, e ao longo do tempo tornou-se senso comum, repetida com tanta frequência que quase ninguém questiona se ela tem alguma base real. 

Cada um dos pontos abaixo usa uma fonte diferente, cobrindo desde estatística nacional de mortalidade até levantamento estadual de infrações, para montar um quadro completo em vez de depender de um único estudo isolado.

1. Mulheres são minoria nas mortes no trânsito

Segundo dados do Ministério da Saúde citados pelo portal Alegrete Tudo, 82% das vítimas fatais no trânsito brasileiro são homens. Mulheres representam 18%. Essa proporção não é uma exceção pontual, ela se repete ano após ano nos levantamentos nacionais de mortalidade no trânsito.

Em São Paulo, o Infosiga-SP, sistema oficial de dados de trânsito do estado, registrou, em 2022, que 92,7% dos condutores mortos em sinistros eram homens, contra 7,3% de mulheres. Considerando todas as vítimas fatais, incluindo pedestres e passageiros, a proporção fica em 82,5% de homens e 17,5% de mulheres. Se o ditado fosse verdadeiro, seria de se esperar o contrário.

2. Homens cometem infrações de trânsito com muito mais frequência

Uma pesquisa da Quality Planning, feita para seguradoras, mostrou que homens têm 3,4 vezes mais chance de cometer uma infração de trânsito do que mulheres. Isso inclui desde excesso de velocidade até manobras arriscadas, o tipo de comportamento que mais frequentemente antecede um sinistro grave.

Um levantamento do aplicativo Zul+, usado para pagamento de estacionamento e multas, encontrou um número na mesma direção, dentro do mesmo compilado de dados citado acima. 

Das multas pagas na plataforma, 79% foram cometidas por homens, um número que se sustenta mesmo considerando que homens e mulheres não dirigem exatamente na mesma proporção em todas as faixas etárias.

3. Homens dirigem embriagados com muito mais frequência

A mesma pesquisa da Quality Planning apontou que homens têm 3,1 vezes mais chance de dirigir sob efeito de álcool do que mulheres. Direção alcoolizada é um dos fatores que mais pesam em sinistros graves e fatais, então essa diferença sozinha já explica boa parte da disparidade nos números de mortes.

Isso também ajuda a entender por que boa parte das campanhas de trânsito voltadas para redução de mortalidade tende a mirar especificamente o público masculino jovem, que concentra tanto o maior consumo de álcool ao volante quanto o maior envolvimento em sinistros fatais.

4. Homens causam quase 3 vezes mais colisões

Um estudo da Unicamp em parceria com a ZigNET, usando dados da Senatran, de Detrans e do IBGE, analisou o período de junho de 2021 a julho de 2022. O resultado mostrou 192.643 colisões causadas por motoristas homens, contra 68.039 causadas por motoristas mulheres, uma diferença de quase três vezes.

Em colisões traseiras especificamente, a diferença aparece de novo. Foram 123.633 casos envolvendo homens, contra 40.182 envolvendo mulheres. Esse tipo de colisão costuma estar ligado a distração ou a distância de segurança insuficiente, dois comportamentos que os próprios dados de infração já apontavam como mais comuns entre motoristas homens.

5. O padrão se repete quando os dados são locais

Em Brasília, o Detran-DF divulgou, em 2025, que as mulheres representam 42% dos motoristas habilitados no Distrito Federal. Mesmo assim, elas aparecem em apenas 13% dos sinistros fatais registrados no mesmo ano.

Esse tipo de comparação, entre a proporção de motoristas e a proporção de sinistros graves, é justamente o que expõe a distância entre o ditado popular e a realidade. Se mulheres realmente representassem “perigo constante” no trânsito, o esperado seria que a fatia delas nos sinistros fatais acompanhasse, no mínimo, a fatia delas entre os motoristas habilitados, não ficasse muito abaixo dela.

6. Quando mulheres morrem no trânsito, o padrão também muda

Segundo o Plano Global da ONU para segurança viária, citado no mesmo compilado de dados, mulheres tendem a morrer no trânsito mais como pedestres ou passageiras do que como motoristas. Isso muda completamente a leitura das estatísticas de mortalidade feminina no trânsito.

Elas também têm 47% mais risco de sofrer lesões graves em sinistros, e cinco vezes mais risco de lesão cervical, mesmo não sendo, na maioria dos casos, quem estava ao volante causando o sinistro. 

Parte disso está relacionada a fatores como o design de cintos de segurança e testes de colisão historicamente desenvolvidos com base em corpos masculinos, uma discussão que vem ganhando espaço entre pesquisadores de segurança veicular nos últimos anos.

7. O mito persiste mesmo contrariando os dados

Se os números são tão claros, por que “mulher no volante, perigo constante” ainda é uma frase tão repetida? A resposta tem mais a ver com percepção do que com estatística.

Comportamentos de risco praticados por homens costumam ser normalizados, tratados como parte do jeito de dirigir, enquanto qualquer deslize cometido por uma mulher tende a ser generalizado e usado para reforçar o estereótipo. 

Um erro isolado, como estacionar mal ou hesitar num cruzamento, vira prova de uma regra que os próprios dados contradizem, enquanto um homem ultrapassando pela direita ou fechando outro carro raramente é lido como representativo de nada além dele mesmo.

8. O que realmente determina a segurança no trânsito

Gênero não é o fator que explica a diferença nos números. Comportamento explica. Velocidade, consumo de álcool, imprudência e falta de direção defensiva pesam muito mais do que quem está sentado no banco do motorista.

Os estudos citados aqui apontam justamente para isso. Homens se envolvem mais em comportamentos de risco, e é esse comportamento, não o gênero em si, que aparece repetidamente ligado a mais sinistros e mais mortes. 

Um motorista cuidadoso, seja homem ou mulher, tende a ter os mesmos resultados no trânsito, e é exatamente esse tipo de comportamento, não o gênero de quem dirige, que todo curso de direção defensiva tenta ensinar.

O que os números realmente dizem sobre mulher no volante

Juntando os oito pontos deste texto, fica claro que o ditado não se sustenta. Os principais pontos são estes:

  • Mulheres representam minoria nas mortes no trânsito, tanto em dados nacionais quanto estaduais;
  • Homens cometem mais infrações, dirigem mais embriagados e causam mais colisões;
  • Em Brasília, mulheres são 42% dos motoristas habilitados, mas só 13% dos sinistros fatais;
  • Quando mulheres morrem no trânsito, geralmente é como pedestres ou passageiras, não como causadoras do sinistro;
  • O que determina a segurança no trânsito é comportamento, não gênero.

Da próxima vez que alguém repetir essa frase, vale lembrar dos números. Eles contam uma história bem diferente do ditado, e contam essa história com uma consistência que atravessa cidade, estado e metodologia de pesquisa diferentes, o que torna difícil descartar como coincidência.

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